Moravam na mesma cidade e já haviam sentido aquele friozinho na barriga de quem espera por um telefonema no fim da tarde de uma sexta-feira. Naquele ano, ainda não existia celular, bina, nada que identificasse quem fizesse uma ligação. Quando o telefone tocava na casa, ela corria pra atender. Do outro lado, sempre era a mãe ou alguma amiga querendo um bate-papo. Outras vezes era engano. Outras vezes quando ela pegava o telefone a ligação já havia parado. Ela começou a sentir-se ridícula pela corrida ao telefone. Iniciou, assim, uma série de questionamentos. Como uma balzaquiana, independente, responsável e inteligente, corria à espera de uma ligação?
Ele era um homem meio desligado. Não conseguia guardar o nome das pessoas. Números de telefone, então, nem pensar. Até o da própria casa já havia esquecido uma vez. Porém, também era independente, responsável e inteligente. A angústia causada pela última ligação recebida perdeu-se no tempo. Ele não esperava mais.
Era setembro de uma quinta-feira chuvosa. Cansada, saiu do trabalho sem se importar com o tempo ruim que estava lá fora. A chuva aumentou quando estava próxima ao Teatro Nacional e resolveu parar o carro ali mesmo. Observou que haviam muitos carros estacionados e lembrou-se de que era dia de concerto. Decidiu abrir sua sombrinha e assistir. Seus passos foram corridos, pois percebeu que já iriam impedir a entrada. Meio esbaforida, sentou na primeira cadeira vazia que conseguiu avistar.
Após algumas peças executadas, eis que surge o concerto para piano nr 15 em B maior KV. 450. de Mozart. Ela fechou os olhos e deixou-se absorver pelo colorido esfuziante que aquele instante permitia. Fim de concerto, muitos bravos, e ela foi a última a sair do Teatro. Parecia não querer sair dali.
Surpreendeu-se quando encontrou uma amiga do trabalho que tinha aversão à música clássica. Após alguns minutos, um dos músicos da orquestra aproximou-se e abraçou sua amiga. Ela sabia que sua amiga era separada, então concluiu em poucos segundos que os dois poderiam ser namorados. E por poucos segundos, achou que poderia ser até interessante duas pessoas parecerem tão diferentes e estarem juntas. Outros segundos passados, sua amiga apresentou seu irmão e a convidou para acompanhá-los. Extasiada, ela aceitou. Enquanto sua amiga preparava o jantar, eles conversavam. Era tanto assunto que sua amiga acabou dormindo. Trocaram o número do telefone e o dia seguinte era uma sexta-feira.