segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Hoje, ela pegou o caderninho que estava bem escondido e, depois de lidas algumas folhas, resolveu guardá-lo novamente. Exatamente 25 dias haviam se passado sem nenhuma grande manifestação. Aquela a quem desconfiava surgia nas horas mais impróprias. Incoveniente, astuta e com uma perversidade não impressa em palavras.

Hoje, ela teve medo. O primeiro encontro foi há nove anos, onze meses e muitos dias. Isso significava que nas próximas horas, aquela outra poderia aparecer com alguma má intenção, só para marcar os dez anos.

Hoje, ela ficou em dúvida se havia escolhido o companheiro certo para cuidar de sua filhinha. Seus pais em idade avançada e ninguém mais com quem contar.

Hoje, ela continuava a acreditar que teria mais dez anos ao lado de sua filha.

Hoje, ela também continuava a acreditar que aquela outra a esqueceria de vez.
...
Hoje ainda não havia acabado e de uma certa forma aquela outra sempre mandava um recado: horário dos remédios. Ela os olhava e pensava: pelo menos, eles são coloridos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

BRAVO!

Moravam na mesma cidade e já haviam sentido aquele friozinho na barriga de quem espera por um telefonema no fim da tarde de uma sexta-feira. Naquele ano, ainda não existia celular, bina, nada que identificasse quem fizesse uma ligação. Quando o telefone tocava na casa, ela corria pra atender. Do outro lado, sempre era a mãe ou alguma amiga querendo um bate-papo. Outras vezes era engano. Outras vezes quando ela pegava o telefone a ligação já havia parado. Ela começou a sentir-se ridícula pela corrida ao telefone. Iniciou, assim, uma série de questionamentos. Como uma balzaquiana, independente, responsável e inteligente, corria à espera de uma ligação?

Ele era um homem meio desligado. Não conseguia guardar o nome das pessoas. Números de telefone, então, nem pensar. Até o da própria casa já havia esquecido uma vez. Porém, também era independente, responsável e inteligente. A angústia causada pela última ligação recebida perdeu-se no tempo. Ele não esperava mais.

Era setembro de uma quinta-feira chuvosa. Cansada, saiu do trabalho sem se importar com o tempo ruim que estava lá fora. A chuva aumentou quando estava próxima ao Teatro Nacional e resolveu parar o carro ali mesmo. Observou que haviam muitos carros estacionados e lembrou-se de que era dia de concerto. Decidiu abrir sua sombrinha e assistir. Seus passos foram corridos, pois percebeu que já iriam impedir a entrada. Meio esbaforida, sentou na primeira cadeira vazia que conseguiu avistar.

Após algumas peças executadas, eis que surge o concerto para piano nr 15 em B maior KV. 450. de Mozart. Ela fechou os olhos e deixou-se absorver pelo colorido esfuziante que aquele instante permitia. Fim de concerto, muitos bravos, e ela foi a última a sair do Teatro. Parecia não querer sair dali.

Surpreendeu-se quando encontrou uma amiga do trabalho que tinha aversão à música clássica. Após alguns minutos, um dos músicos da orquestra aproximou-se e abraçou sua amiga. Ela sabia que sua amiga era separada, então concluiu em poucos segundos que os dois poderiam ser namorados. E por poucos segundos, achou que poderia ser até interessante duas pessoas parecerem tão diferentes e estarem juntas. Outros segundos passados, sua amiga apresentou seu irmão e a convidou para acompanhá-los. Extasiada, ela aceitou. Enquanto sua amiga preparava o jantar, eles conversavam. Era tanto assunto que sua amiga acabou dormindo. Trocaram o número do telefone e o dia seguinte era uma sexta-feira.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Aos cinco anos, Maria Cecília ganhou um passarinho de presente de seu pai. De tão emocionada, não parava de olhar e conversar com o bichinho. O pai de Maria Cecília falou para que ela tivesse muito cuidado com a gaiola onde o passarinho estava, pois ele só iria cortar uma das asas do bichinho depois de uns dias. Obediente que era, ela fez exatamente o que seu pai havia pedido. Passados dois dias, o pai de Maria Cecília disse que na quarta-feira seguinte, ele teria tempo suficiente para cortar a asa do passarinho. De repente, Maria Cecília achou tão estranho aquele bichinho dentro da gaiola. De repente, Maria Cecília achou a gaiola uma coisa esquisita, muito esquisita. De repente, seu coração começou a sentir um apertinho e sua cabeça ficou um tanto embaralhadinha. De repente, o apertinho no coração foi embora, o embaralho na cabeça passou, e uma de suas mãozinhas abriu a estreita porta da gaiola, a outra apanhou o bichinho, e depois de dizer algumas palavras bem baixinho para que ninguém a ouvisse, ela abriu suas mãos de menina e sorriu encantada para a vida.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Depois de tantos ares passados, ela conseguiu perceber a indescritível clareza que alguém já havia lhe tentado contar, mas que ela acreditava nunca alcançar. Aquela névoa, que antes confundia suas retinas, definitivamente, havia se dissipado por meio de uma respiração profunda, carregada de mansidão. Relembrou seus tempos de menina, a antiga casa da chácara e retornou, assim, para a clareza por hora descoberta. Envolvida por seus próprios afagos, sentiu-se liberta, regada para um novo recomeço!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

DONA JOANINHA

Em 1981, aos 10 anos de idade, eu caminhava e corria devagar pelo eixão na altura da 111 Norte, em Brasília. Ao meu lado, estava Dona Joana conhecida carinhosamente como Dona Joaninha. Lembro-me dos sorrisos serenos, iluminados pelos raios daquela manhã ensolarada e refrescante que tínhamos no rosto. Em algum momento daquela caminhada, Dona Joaninha fez um aceno com uma das mãos indicando um tchau ou um até logo. Com aquele aceno, ela mudou de direção. Repeti o mesmo gesto e ela se foi com um sorriso manso que cintilava em seu corpo. Em outro momento, despertei em Juiz de Fora, Minas Gerais. Algumas horas depois, o telefone tocou e, por certos instantes, uma breve ventania percorreu todos os espacinhos mais recônditos do meu ser. Tempos depois, entendi que o privilégio daquela alegre despedida não mais seria esquecida.