segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A vida de Estela

...
Acreditava em muita coisa. Acreditava até que aquele político havia se tornado uma pessoa melhor. Ela gostava de acreditar. Era uma acreditadora. Ontem, acreditou que no final daquela tarde primaveril, conheceria alguém especial. Pensou em ir a alguma exposição. Imaginou que entre uma tela ou escultura, admirada com o que via, alguém ao lado faria um comentário em bom e quase alto tom, ela faria uma intervenção, daí surgeria um encontro para o resto de sua vida. Bem, não precisava ser para o resto de sua vida, mas para uma parte considerável dela, assim pensava.
- Sinto o conflito expresso no vermelho que ensanguenta a tela. - disse um homem qualquer.
- Engraçado, pois eu vejo vida, vida em abundância.
Bem que o encontro quase acontecera. Mas mal começara no ponto final do abundância. Estela desejara um abraço. Nem os livros que ela dava tanta importância, tiravam dela aquela vontade de afago. Não era chegada em bares, mas adorava cafés.
Em muito, há de se depender do outro e era, justamente, nisso que a vontade dela esbarrava.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

...
Deixou a porta entreaberta. Se aquela fosse a hora, pelo menos alguém saberia. Pensava nisso repetidadamente. Desapareceria. Passaria por? Fechou os olhos, respirou profundamente. Estava bem? Seria capaz de fazer o quê? Estaria caminhando ou flutuando? Ao certo, desapareceria. Imaginou, alguém oferencendo-lhe as mãos, alguém a olhando. Quem seria? E os próximos passos.
Desapareceria...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Morfina e outros fins

E é por tudo o que via, que via beleza em si.
E é por tudo o que via, que insistia.
E é por tudo o que tinha, que pedia mais e mais uns dias.
Ela sabia que a hora estava perto, mas em orações a chegada impedia.
Ela sabia que a hora estava perto e, em meio a lágrimas, sorria.
Ela sabia. Ela sentia.
Hoje, sentiu poucas dores. Hoje, fentanil não é de uma cor reluzente, mas nem por isso ela esqueceu-se de agradecer.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A vida de Estela

Muitas vezes, basta uma imagem, basta uma música, basta uma frase, e uma lembrança ressurge à mente. Hoje, Estela, que antes era Maria Cecília, pensou durante algum tempo no que acontecera há uns dez anos. Naquele dia, ela fora trabalhar no período vespertino. Quando chegou para o expediente, os colegas, por volta de vinte e cinco, pareciam desconcertados. O boa tarde empolgante que Estela desejara a todos não atingira nenhum alvo. Preocupada, ela questionou o porquê de tanto descontentamento. Ressabiado, um colega mais próximo relatou a desventura. Estela emudeceu. Estela olhou a sua volta e sentiu-se congelada numa câmara estreita, muito estreita. Não conseguia imaginar porque Cristina rompera palavras tão afiadas em pedras de esmeril. Meu Deus, como a força de um atrito é capaz de rearrancar um corpo de um corpo? Apesar do extraordinário instinto maternal, Estela não conseguira fitar Maria. Estela permanecia atônita. Estela passou, levemente, as mãos em sua barriga e pensou que poderia ser ela. Não que aquilo fosse o fim do mundo. Não que aquilo fosse o fim. Não. Mas só quem desejara ser mãe, mais que qualquer outro sonho, poderia compreender a inquietação da imobilidade daquele momento. Maria cuidara dos irmãos mais novos. Maria fazia caridade. Maria trabalhava. Maria cantava. Maria casou-se aos trinta e já desejava um filho. Dois anos seguintes e uma doença arrancara os óvarios e úteros.
- E você que é tão seca, tão seca, que chega a ser seca por dentro - disse Cristina.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a noite chegara mais fria, mais pálida...
Deserta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Para você

Oi, como estás?
Espero que bem.
Eu? Ah... Até ontem, cansada. Sei que é uma fase, sei que passa, sei que... Acho que um dos meus problemas é esse sei. Essa coisa esquisita de fazer terapia comigo mesma. Será que já falei isso pra você? Fiz terapia durante um bom tempo e estudei muito sobre isso, o que realmente penso ser muito bom. Tentar descobrir o porquê de algumas reações pode ser um monólogo muito evolutivo. Mas até isso tem me deixado cansada. Não acho que a ignorância salve, mas pode até distrair. No domingo, tomei um café da manhã lá no Daniel Briand. O croissant continua o melhor da cidade e a paisagem em volta continua linda, apesar da seca. Depois, fui caminhar no parque Olhos d'Água. Engordei nos últimos tempos. Remédios para tirar dores dão nisso, né? A gente fica inchada. É isso mesmo inchaço e cansaço, só pode ser isso, rs... Não, não é mesmo, pois o cansaço vem de antes. Em um almoço de família, sentei-me perto do Seu Antônio. Um senhor interessante, com olhos brilhantes, apesar do câncer no estômago. Todos comendo horrores e ele lá sem poder comer nada sólido. Nessas horas, acho meu cansaço uma bobagem imensurável. Tenho vergonha. Conversei muito com ele, pois como ele veio para cá em 1956, imagina o quanto ele tem pra contar, né? Ele disse que durante um bom tempo na construção de Brasília só existiam homens, parece que só depois de um ano é que começaram a chegar as mulheres dos trabalhadores. Disse que era tanta poeira e tanto vento. Disse, também, que na construção daquele prédio do Congresso, eles fizeram primeiro toda a estrutura de aço para depois colocarem tijolo e o restante necessário, e que lá de sei lá quantos metros de altura, muitos e muitos operários caíam e quando ele olhava tava só um capachinho no chão e que rapidamente alguém chegava com uma lona preta e levavam o morto pra onde ele não soube dizer. Disse que teve um dia que ele viu dois caminhões cheios de malas que deveriam ser desses operários mortos.
Hoje, choveu a madrugada toda. Uma chuva educada, sabe? Acordei tão bem.... Sinto-me disposta, serena, viva!!! É tão reconfortante ver como já está tudo quase verde a minha volta. Conte-me de você. Continua com aquele jeito discreto?
Beijos e fica com Deus.
S.