Tem dias como o de hoje que é só canseira.
Canseira de tudo e de todos.
E tem tanta coisa desnecessária.
E tanta gente chata.
Canseira que cansa de tanto cansaço.
Um saco.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Percepção
Nenhum temor mais permaneceu. Naquele instante, concedeu-se a passagem. Fez-se. Não havia o que contrapesar. Conhecer suas limitações a tranquilizava. Ao abrir a porta do apartamento, apoiou a bolsa numa poltrona próxima, tirou os sapatos e em pé permitiu que as imagens de agora tornassem o presente. A certa distância era noite mas, naquela claridade, a tarde nem havia chegado. Hoje, Maria Cecília não temia mais a afeição que manava de si. Percebeu um novo silêncio:
- Agora, não serei mais inquilina de mim.
- Agora, não serei mais inquilina de mim.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Colônia de Férias
- Por favor, você tem trinta dessas canetinhas hidrocor? - disse Maria Cecília ao vendedor de uma papelaria.
- Sim, algo mais? - disse o vendedor.
- Não.
- O caixa fica a sua esquerda.
- Sim, algo mais? - disse o vendedor.
- Não.
- O caixa fica a sua esquerda.
- Por favor, pensei melhor e quero sessenta.
- Quantas?
- Sessenta.
- Vou pegar no estoque.
...
Meia hora depois Maria Cecília chega ao apartamento de uma amiga.
- E aí? Feliz Ano Novo! Aqui estamos.- disse Maria Cecília entregando uma caixa.
- Feliz Ano Novo, amiga! Tem as trinta aqui?
- Tem o dobro.
- Mas pra quê?
- E se alguma falha ou acaba antes de uma semana?
- Tá bom, mas que é um exagero é.
- O que sobrar a gente divide pras crianças levarem.
Conversaram durante algumas horas e Maria Cecília despediu-se. Ao chegar em casa, Maria Cecília abriu as alvas cortinas da janela da sala de seu apartamento e fitou os olhos a um barraco distante, talvez uns trinta anos. Eram dois cômodos.
- Dona Ana, a senhora tem uma folha de papel branco? - disse a menina.
- Tenho não. - disse a senhora.
- Hum...
- Ah, tenho um pedaço mas tá muito empoeirado.
- Eu limpo. - disse a menina.
Já era tarde da noite quando a menina vê a mãe chegar.
- Mãe, você trouxe as canetinhas?
- Não, a dona Vera é muito ocupada, minha filha.
- É... - disse a menina com um vento cinza no olhar. Mas ela disse pra senhora se vai comprar?
- Disse sim.
- Quando?
- Minha filha, dona Vera vai viajar de férias, não sei quando ela volta.
A mãe não viu o vento cinza, não viu nada, mais nada. De tão cansada e imaginando a próxima faxina que faria no dia seguinte, adormeceu. A menina guardou o pedaço de folha que ainda estava um pouco úmido e adormeceu também.
Aos poucos, uma chuva serena envolveu aquele fim de tarde ensolarado e Maria Cecília percebeu melhor o tempo, o movimento.
- Sessenta.
- Vou pegar no estoque.
...
Meia hora depois Maria Cecília chega ao apartamento de uma amiga.
- E aí? Feliz Ano Novo! Aqui estamos.- disse Maria Cecília entregando uma caixa.
- Feliz Ano Novo, amiga! Tem as trinta aqui?
- Tem o dobro.
- Mas pra quê?
- E se alguma falha ou acaba antes de uma semana?
- Tá bom, mas que é um exagero é.
- O que sobrar a gente divide pras crianças levarem.
Conversaram durante algumas horas e Maria Cecília despediu-se. Ao chegar em casa, Maria Cecília abriu as alvas cortinas da janela da sala de seu apartamento e fitou os olhos a um barraco distante, talvez uns trinta anos. Eram dois cômodos.
- Dona Ana, a senhora tem uma folha de papel branco? - disse a menina.
- Tenho não. - disse a senhora.
- Hum...
- Ah, tenho um pedaço mas tá muito empoeirado.
- Eu limpo. - disse a menina.
Já era tarde da noite quando a menina vê a mãe chegar.
- Mãe, você trouxe as canetinhas?
- Não, a dona Vera é muito ocupada, minha filha.
- É... - disse a menina com um vento cinza no olhar. Mas ela disse pra senhora se vai comprar?
- Disse sim.
- Quando?
- Minha filha, dona Vera vai viajar de férias, não sei quando ela volta.
A mãe não viu o vento cinza, não viu nada, mais nada. De tão cansada e imaginando a próxima faxina que faria no dia seguinte, adormeceu. A menina guardou o pedaço de folha que ainda estava um pouco úmido e adormeceu também.
Aos poucos, uma chuva serena envolveu aquele fim de tarde ensolarado e Maria Cecília percebeu melhor o tempo, o movimento.
Acolheu-se...
...
Na semana seguinte, numa comunidade não longe dali, uma menina desenhava um jardim.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
RETORNO
E escrever em um blog é prazeroso.
E conhecer outros blogs também é prazeroso.
E tecer e ler comentários também é prazeroso.
Mas, ainda, existe a tal resistência ao mundo virtual.
Mas, ainda, existe muita preguiça de gente com tanta pressa no tempo atual.
E sinto que a roça é o melhor lugar do mundo pra se viver.
E sinto alegria com o cheiro do mato.
E sinto alegria com o burburinho dos pássaros.
E sinto alegria quando vejo as tartarugas no riacho.
Assim, apareço nesse trem virtual só quando der vontade.
E conhecer outros blogs também é prazeroso.
E tecer e ler comentários também é prazeroso.
Mas, ainda, existe a tal resistência ao mundo virtual.
Mas, ainda, existe muita preguiça de gente com tanta pressa no tempo atual.
E sinto que a roça é o melhor lugar do mundo pra se viver.
E sinto alegria com o cheiro do mato.
E sinto alegria com o burburinho dos pássaros.
E sinto alegria quando vejo as tartarugas no riacho.
Assim, apareço nesse trem virtual só quando der vontade.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Para Marlene
Depois de mais ou menos um ano, a despedida foi repleta de luminosidade.
Antes, a chegada deles...
Quando você trouxe a encomenda, eu disse obrigada.
Animada, pediu que eu experimentasse.
Naquela tarde nublada, era novembro de 1988, o corredor que separava a sala dos três quartos parecia um caminho desconhecido. Talvez, o abrigo seguro de um último fio não encontrado. Talvez.
No quarto, ao tirar o lenço suavemente florido que envolvia a cabeça, percebi a leveza da encomenda.
Do lado de fora, você perguntava:
- Já experimentou?
Sem olhar a encomenda, coloquei-a e, timidamente, abri a porta.
Rapidamente, levou-me ao espelho do banheiro que ficava ao lado do quarto e, delicadamente, penteou os cabelos dizendo:
- Pareço uma dama de companhia, uma ama daqueles filmes antigos, e você está igualzinha uma princesa.
- Eu?
- Além de macios e naturais, esses cabelos têm uma luminosidade, né?
Meus olhos profundos de nascença elevaram-se, aos poucos, ao encontro da luz que aqueles fios guardavam.
Com o passar das nuvens sombreadas, os fios tornaram-me mais e mais brilhantes. Talvez, nunca saberei de quem eram mas, nos meses seguintes, eles também eram meus.
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