quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

...
Deixou a porta entreaberta. Se aquela fosse a hora, pelo menos alguém saberia. Pensava nisso repetidadamente. Desapareceria. Passaria por? Fechou os olhos, respirou profundamente. Estava bem? Seria capaz de fazer o quê? Estaria caminhando ou flutuando? Ao certo, desapareceria. Imaginou, alguém oferencendo-lhe as mãos, alguém a olhando. Quem seria? E os próximos passos.
Desapareceria...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Morfina e outros fins

E é por tudo o que via, que via beleza em si.
E é por tudo o que via, que insistia.
E é por tudo o que tinha, que pedia mais e mais uns dias.
Ela sabia que a hora estava perto, mas em orações a chegada impedia.
Ela sabia que a hora estava perto e, em meio a lágrimas, sorria.
Ela sabia. Ela sentia.
Hoje, sentiu poucas dores. Hoje, fentanil não é de uma cor reluzente, mas nem por isso ela esqueceu-se de agradecer.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A vida de Estela

Muitas vezes, basta uma imagem, basta uma música, basta uma frase, e uma lembrança ressurge à mente. Hoje, Estela, que antes era Maria Cecília, pensou durante algum tempo no que acontecera há uns dez anos. Naquele dia, ela fora trabalhar no período vespertino. Quando chegou para o expediente, os colegas, por volta de vinte e cinco, pareciam desconcertados. O boa tarde empolgante que Estela desejara a todos não atingira nenhum alvo. Preocupada, ela questionou o porquê de tanto descontentamento. Ressabiado, um colega mais próximo relatou a desventura. Estela emudeceu. Estela olhou a sua volta e sentiu-se congelada numa câmara estreita, muito estreita. Não conseguia imaginar porque Cristina rompera palavras tão afiadas em pedras de esmeril. Meu Deus, como a força de um atrito é capaz de rearrancar um corpo de um corpo? Apesar do extraordinário instinto maternal, Estela não conseguira fitar Maria. Estela permanecia atônita. Estela passou, levemente, as mãos em sua barriga e pensou que poderia ser ela. Não que aquilo fosse o fim do mundo. Não que aquilo fosse o fim. Não. Mas só quem desejara ser mãe, mais que qualquer outro sonho, poderia compreender a inquietação da imobilidade daquele momento. Maria cuidara dos irmãos mais novos. Maria fazia caridade. Maria trabalhava. Maria cantava. Maria casou-se aos trinta e já desejava um filho. Dois anos seguintes e uma doença arrancara os óvarios e úteros.
- E você que é tão seca, tão seca, que chega a ser seca por dentro - disse Cristina.
Mais tarde, naquele mesmo dia, a noite chegara mais fria, mais pálida...
Deserta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Para você

Oi, como estás?
Espero que bem.
Eu? Ah... Até ontem, cansada. Sei que é uma fase, sei que passa, sei que... Acho que um dos meus problemas é esse sei. Essa coisa esquisita de fazer terapia comigo mesma. Será que já falei isso pra você? Fiz terapia durante um bom tempo e estudei muito sobre isso, o que realmente penso ser muito bom. Tentar descobrir o porquê de algumas reações pode ser um monólogo muito evolutivo. Mas até isso tem me deixado cansada. Não acho que a ignorância salve, mas pode até distrair. No domingo, tomei um café da manhã lá no Daniel Briand. O croissant continua o melhor da cidade e a paisagem em volta continua linda, apesar da seca. Depois, fui caminhar no parque Olhos d'Água. Engordei nos últimos tempos. Remédios para tirar dores dão nisso, né? A gente fica inchada. É isso mesmo inchaço e cansaço, só pode ser isso, rs... Não, não é mesmo, pois o cansaço vem de antes. Em um almoço de família, sentei-me perto do Seu Antônio. Um senhor interessante, com olhos brilhantes, apesar do câncer no estômago. Todos comendo horrores e ele lá sem poder comer nada sólido. Nessas horas, acho meu cansaço uma bobagem imensurável. Tenho vergonha. Conversei muito com ele, pois como ele veio para cá em 1956, imagina o quanto ele tem pra contar, né? Ele disse que durante um bom tempo na construção de Brasília só existiam homens, parece que só depois de um ano é que começaram a chegar as mulheres dos trabalhadores. Disse que era tanta poeira e tanto vento. Disse, também, que na construção daquele prédio do Congresso, eles fizeram primeiro toda a estrutura de aço para depois colocarem tijolo e o restante necessário, e que lá de sei lá quantos metros de altura, muitos e muitos operários caíam e quando ele olhava tava só um capachinho no chão e que rapidamente alguém chegava com uma lona preta e levavam o morto pra onde ele não soube dizer. Disse que teve um dia que ele viu dois caminhões cheios de malas que deveriam ser desses operários mortos.
Hoje, choveu a madrugada toda. Uma chuva educada, sabe? Acordei tão bem.... Sinto-me disposta, serena, viva!!! É tão reconfortante ver como já está tudo quase verde a minha volta. Conte-me de você. Continua com aquele jeito discreto?
Beijos e fica com Deus.
S.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Janelas

A menina dobra os quatro dedos da mão e deixa o polegar esticado.
- O coração é assim. - diz a menina.

Hoje, não sei porque motivo, lembrei-me de quando era criança, viajando de carro com meus pais. Adorava deitar num cantinho do carro, fazia uma espécie de caminha com um colchão pequeno, colocava uns paninhos e olhava pro céu. Adorava ver o céu desenhar.

Tinha um senhor lá no prédio onde moro, que havia plantado uma árvore. Da janela, ele gostava de cuidar da árvore. Quando eu o conheci, seus cabelos já eram alvos e a árvore tinha uns sete metros. Seu José era o nome dele.

Na minha frente tem um prédio enorme, nem sei quantos andares têm. As janelas lá foram não mostram, mas eu sei, que tem alguém à espera também não sei de quem.

Disseram que a árvore do Seu José foi cortada para uma vaga de carro.

- Estou indo. - disse um colega de trabalho.
- Bom descanso. - disse.
- Poderia ficar mais um pouco, mas estou meio down. - disse o colega.
- Tudo vai melhorar...