Abriu a pequena mala e colocou poucas peças de roupa. Pegou a boneca que mais gostava e guardou-a junto ao vestido mais bonito que tinha. Olhou seu quarto e despediu-se daquilo que não poderia levar. Observou as almofadas em formato de coração que enfeitavam sua cama e chorou. Eram vermelhas com babadinhos brancos. Todos os dias, sem que ninguém percebesse, pedia a Deus que a resgatasse daquela cidade rodeada de morros e espinhos. Aos quinze anos e três meses de vida, tinha urgência. Os pais pensavam ser apenas um mês de férias, porém, antes da partida, avisou: “nunca mais volto aqui”. Eles não acreditaram. Aos nove anos, quando da mudança de sua terra natal para aquela outra cidade, ela disse: “Esse lugar para onde vamos só nos trará tristezas”. Eles também não acreditaram. Agora, aos quinze, ninguém tiraria dela a escolha pela vida. No ônibus, aqueles olhos fundos e embaciados voltavam, aos poucos, a sorrirem. Não pensou se os tios não iriam acolhê-la. Não pensou em mais nada. Era ela, Deus e a pequena mala. E isso bastava. Quase ao final das férias, decidida, falou aos tios que não retornaria. Divididos, aceitaram-na. Muita coisa aconteceu, e muito, muito tempo depois, ao encontrar-se com sua prima, ouviu a seguinte confissão: “não gosto daquele lugar, sinto saudades daqui, de onde era feliz”. Maria Cecília nunca entendera porque um casamento seria capaz de fazer com que seus pais e outros parentes fossem para aquele lugar. Mais de quinze anos passados, enxergou a tristeza no olhar de sua prima, quase vinte anos mais velha do que ela, mas entendeu que aquela mudança insana de antes quem havia escolhido era ela. Teve vontade de colocá-la em seus braços e mudar todo o roteiro daquela biografia. Lembrou-se da sua intuição de menina e pensou: "se tivessem escutado o que disse?" Mas era tarde demais.